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  • Foto do escritorMarcelo Michelsohn

Eu Já Estive no Centro do Poder Econômico e Adoeci



Acordei e vi a seguinte notícia em um grupo de formação do qual faço parte: "Presidente Erdogan da Turquia, em conversa com o emir do Qatar, pede cuidado para que o conflito no oriente médio não se intensifique." Erdogan estava se referindo a Israel. Ao ler esta notícia, escrevi o texto abaixo.


Resumo da noticia acima. “Um ditador que oprime e mata minorias (ex: Kurdos) ligou para outro ditador que oprime e mata seu povo (por exemplo minorias LGBTQIA+) pra dizer que precisam frear um ditador que oprime e mata os palestinos”


Todos os governos do mundo fazem parte do CMI (Capitalismo Mundial Integrado), inclusive China e Russia. Todos esses governantes são impotentes homens de poder. Sim, são HOMENS que se acham superiores e querem controlar ou eliminar as mulheres, os animais, os diferentes.


Ser contra o genocídio em Gaza não requer que sejamos a favor de ditaduras. Eu posso condenar Israel sem achar que a Turquia, de uma hora pra outra, virou um modelo de gestão.


Vou contar uma história. Em 2005-2006 eu trabalhava com Risco Socioambiental em um Banco Holandes. A Russia estava pedindo financiamento para 20 bancos: o ABN AMRO onde eu trabalhava e mais 19 bancos europeus além do BID com sede nos EUA. Era um projeto de duas plataformas e dois dutos um de petróleo e outro de gás natural. O projeto era uma parceria da Shell (empresa Anglo/Holandesa) com o governo da Russia.


Eu era o responsável por ler toda a documentação enviada pelos clientes e avaliar se o projeto (que já estava 60% pronto e com toda produção já vendida para Japão, Europa e outros países) estava de acordo com as normas socioambientais (que nem eram tão rígidas assim).


Descobri que as plataformas foram colocadas no local de alimentação das ultimas 200 Baleias Cinzas, que os dutos iam cruzar 1000 (exatamente, Mil) rios e riachos onde salmões se reproduzem e destruir cemitérios indígenas.


Sugeri que o Banco não financiasse o projeto, a não ser que as questões acima fossem resolvidas. Meu chefe, a chefe dele, o chefe da chefe dele e por fim o responsável por toda a área de Risco do banco, concordaram com a avaliação.


Então, o Diretor da área de Petróleo e Gas do Banco ligou diretamente para o Putin e eles deram um jeito de modificar o tipo de financiamento para não precisar passar pela minha area e assim o projeto foi concluído. Eu fiquei literalmente doente.


A economia está toda integrada e o que estes homens de poder querem é consolidar poder e acumular riquezas. Sejam eles chefes de estado ou donos e diretores de grandes corporações. Se algum deles decide não fazer mais isso, não jogar mais o jogo, é substituído.


Essas pessoas não são más. Elas não tem uma natureza má. Mas elas escolheram se aliar e servir a um sistema que obriga um certo modo de vida. Um modo de vida que é recompensado cada vez mais com uma falsa sensação de segurança atrelada a uma quantia de dinheiro.


E a maioria de nós estamos, de certa forma, jogando este jogo. Ao sentirmos um vazio, um medo, uma frustração, corremos para nos apegar a uma salvação, uma solução ou uma distração. Mas as salvações, soluções e distrações vem com um preço: a diminuição da nossa potência. Quanto menos potência, mais vontade de poder, mais cumplicidade com o sistema que nos rebaixa. Como podemos garantir que não nos tornaríamos ditadores, dadas as devidas circunstâncias?


Hoje , por conta das redes sociais temos a falsa sensação de que sabemos o que está acontecendo no mundo e achamos que o nosso lado está com a verdade. Não existe nosso lado e o outro lado. Isso é pura imaginação, como diria Spinoza.


Eu quis compartilhar essa historia pois tive oportunidade de estar no centro do Capitalismo Mundial Integrado e é algo avassalador. O Capitalismo, ou melhor, as formações capitalísticas (incluindo os países ditos comunistas) é uma máquina muito potente. Ela extrai nossas forças das maneiras mais criativas possíveis. Ela é ultrainclusiva. Ninguém fica de fora. Mesmo as minorias são exploradas para se extrair mais valor. Ela é anti-vida. Ela precisa rebaixar nossas vidas para que então passemos o tempo tentando nos salvar, buscando ideais, sejam eles financeiros, emocionais ou espirituais.


Concluindo, e retomando a notícia lá em cima: enquanto acharmos que existem lados dos conflitos (Israel/Palestina, Ucrânia/Russia, etc) estaremos distraídos, sem entender que, na verdade, existe uma máquina de rebaixamento da vida e extração de valor de um lado, e do outro a VIDA, que pulsa e faz o melhor para permanecer na existência.

Nosso trabalho é acessar essa vida em nós. É perceber quando estamos sendo capturados e interromper este processo, dizendo NÃO. Não para o que rebaixa nossa vida. Não para os ideais. Sim para o acontecimento.

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1 Comment


Bruno Aquino
Bruno Aquino
Apr 22

Bom dia😀.

Achei bem interessante a sua análise. Sinto que estamos dentro de uma estrutura que funciona de forma destrutiva e que nos envolvemos com ela através da nossa busca por segurança e estabilidade. O grande desafio, na minha opinião, é sustentar uma vida autêntica e potente ao produzir meios de viver que nos sustente existencialmente e economicamente 😅.

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