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  • mmichelsohn

Grupo de Whatsapp na Escola Pra Que?

Uma experiência com adolescentes de 13-14 anos.


“Se re-aprendêssemos a acariciar, amar e servir as crianças de caracóis loiros, a segurá-las pela mão nas passagens difíceis, a baixar para elas os galhos que não conseguem alcançar; a nos alegrar ao vê-las satisfeitas, ao fim do dia, com um alimento livremente colhido nas fontes generosas que teríamos feito brotar; se soubéssemos responder aos inquietos apelos dos alunos em dificuldade e nos acalmar com o espetáculo dos saltos de satisfação de seres que sobem até os cumes da cultura, por caminhos que não são forçosamente calvários, mas que são sempre caminhos de vida!


Se soubéssemos ajudar as nossas crianças a tornar-se adultos!” (Freinet, 2004, p.12)



Ontem, durante a primeira reunião do ano entre pais e equipe docente da escola que minha filha frequenta, os professores e a coordenadora repetiram algumas vezes que a turma precisava virar um grupo, se ver como um grupo e entender que todos são responsáveis por atingir os objetivos do grupo.


Hoje de manhã, graças a sincronicidade ouvi o podcast Your Undivided Attention com a presença do convidado, David Sloan Wilson, o biólogo americano que revolucionou a teoria da evolução, mostrando entre outras coisas que, os grupos com alta habilidade de cooperação são mais adaptados e portanto tem mais chance de sobreviver e evoluir. No podcast ele citou o trabalho da prêmio Nobel de economia Elinor Ostrom: os 8 Princípios Fundamentais de Design (Core Design Principles) que ela descobriu ao estudar como grupos humanos lidam com bens comuns, ou commons (florestas, peixes, etc).


O pessoal do Center for Humane Technology que produz o podcast acima, convidou o professor Wilson pois, atualmente, a atenção é um dos commons mais importantes e mais explorados, negativamente, especialmente pelas grandes empresas de tecnologia.


Quando acabei de ouvir o podcast, percebi que podemos utilizar esses princípios para ajudarmos nossos filhos nos desafios que estão enfrentando, incluindo mas não limitado, ao uso do Whatsapp da turma.


O princípio 1, criado por Osrom, diz que é preciso uma Identidade Grupal Forte e um Senso de Propósito Coletivo. A identidade se refere a ter clareza de quem faz parte e de quem não faz parte do grupo. Quando falamos na turma de alunos do 8o ano da manhã da escola em 2023, fica claro quem faz parte e quem não faz parte deste grupo. Não estou discutindo se alguns alunos se sentem excluídos por outros. Não é disso que se trata….por enquanto! A 2a parte do princípio 1 é mais complicada. Qual seria o propósito do grupo?


Se estivéssemos falando sobre um time de futebol, fica mais fácil percebermos que o propósito do grupo, geralmente, é ganhar partidas e campeonatos. Sim, cada jogador tem seus próprios propósitos individuais como por exemplo ganhar dinheiro ou ficar famoso, mas todos entendem que se o grupo não atuar de maneira colaborativa visando o propósito comum, dificilmente os propósitos individuais serão realizados.


Os propósitos individuais dos alunos me parecem razoavelmente claros: aprender, tirar boas notas, passar de ano, fazer amigos, namorar, por exemplo. Mas qual seria o propósito do grupo? E, se existem propósitos do grupo, quão bem articulados e compreendidos eles são para os alunos e para a comunidade escolar?


Na reunião de ontem percebi um esforço grande do corpo docente em falar sobre as atividades coletivas: festa junina, festa da primavera, aula de projetos e mais recentemente a tutoria. É como se, por falta de um objetivo coletivo claro, a escola tivesse que criar objetivos coletivos para que os estudantes pudessem ter a experiência da cooperação. Acho que essas atividades e experiências são muito bacanas, mas será que elas são necessárias por conta de uma falta de propósito coletivo a priori?


Aqui entra uma questão interessante pois a turma de alunos do 8o ano da manhã da escola é um grupo, enquanto o 8o ano da manhã da escola é um outro grupo, pois este é composto pelas alunos, professores, coordenadores, outros profissionais da escola e quem sabe até por nós, pais, certo? Então de qual grupo precisamos falar? Talvez se olharmos só para a questão do Whatsapp, poderíamos focar apenas nos alunos, mas se quisermos ampliar a conversa para o processo de aprendizagem, convivência, cooperação, é importante pensarmos neste grupo ampliado. E qual é o objetivo comum deste grupo ampliado? Como é feita a distribuição de obrigações e benefícios (princípio 2) e quem tem voz, quando e para que neste grupo ampliado (princípio 3)?


Se o grupo de alunos não tem um propósito coletivo definido e comunicado, é impossível criar regras para o grupo de whatsapp, pois não sabemos nem para o que ele serve e como beneficia o suposto propósito coletivo do grupo.


Se o grupo de alunos começar a preparar um projeto jornalístico com o propósito de criar e publicar um curta-metragem sobre o crescimento de quintais agroflorestais em Campinas (não custa nada sonhar!), talvez seja interessante usar a ferramenta “grupo de whatsapp” para coordenar as atividades. Mas talvez o Slack seja melhor, pois possibilita a criação de vários canais para cada equipe do projeto poder conversar sem atrapalhar o desenvolvimento das outras equipes. De qualquer forma, só depois de saberem o propósito e escolherem a melhor ferramenta, é possível falar em regras (ou talvez princípios) de uso.


Olhando o grupo de whatsapp do alunos percebi que alguns utilizam para saber quais as lições que tem que entregar na semana. Por que eles não sabem isso? Por que não mandam uma mensagem direta para um colega? Outros pedem descaradamente para que os colegas mandem a lição pronta para copiarem. Apesar da escola ter sido clara que o whatsapp não é uma ferramenta pedagógica institucional da escola e que portanto eles não vão moderar o mesmo, me parece que as crianças usam como uma ferramenta pedagógica, ou no mínimo organizacional. E no meio disso tudo, um menino canta o hino do Corinthians, dois meninos gravam 75 áudios só de coisas aleatórias, outro canta uma música sobre suicídio, outro se filma mostrando o dedo do meio e gritando, etc, etc, etc. Sim, a maioria das mensagens são dos meninos e sim, a maioria esmagadora das mensagens que eles mandam não tem nada a ver com a escola.


Se a escola entende que a turma tem que virar um grupo e ter um objetivo coletivo, acho fundamental que se dê espaço para essa conversa. Um espaço mediado que permita a livre expressão e o cuidado com o outro simultaneamente. Que permita que todas as vozes sejam ouvidas e não apenas as vozes dominantes. Um espaço que respeito este “recurso comum” tam importante que é a nossa atenção.


Grupos que apresentam comportamentos pró-sociais (Prosocial Behaviours) tendem a apresentar resultados mais positivos para seus membros e para as comunidades onde atuam, pois levam em conta o bem comum ao invés de maximizar o sucesso individual. Talvez o propósito do 8o ano da manhã seja ser a turma mais pró-social que a escola já teve e conseguir melhorar a média da turma em relação ao ano passado. Pode ser outra coisa. Só eles podem decidir. Mas quando decidirem e aplicarem o restante dos princípios no anexo abaixo, sinto que o “problema do whatsapp” desaparecerá. Outros conflitos aparecerão e eles ficarão cada vez melhores em resolvê-los e, no final das contas, ao invés de serem apenas ótimos alunos nas matérias, serão pessoas mais plenas.


“Reponha esse trabalho no circuito da vida. Dê-lhe uma finalidade e um sentido. Que ele alimente e impulsione o comportamento natural, que se situe no núcleo do seu destino individual e social.” (Freinet, 2004, p.32)






ANEXO: Princípios Fundamentais de Design 2 a 8

Princípio 2 - Distribuição Justa de Custos e Benefícios:

Basicamente isso significa que todos devem trabalhar para o objetivo coletivo e receber os benefícios deste trabalho. Não significa que todo mundo tem que trabalhar na mesma quantidade ou na mesma coisa, mas que as recompensas sejam ajustadas conforme o trabalho realizado. Simplificando: uma pessoa não deve carregar o grupo nas costas, e as pessoas que não fazem sua parte não devem receber os mesmos benefícios de quem faz.

Princípio 3 - Processo Decisório Coletivo:

Todos devem ter direito de falar e colocar sua opinião a respeito das decisões coletivas.

Princípio 4 - Monitoramento:

Grupos efetivos monitoram as atividades dos seus participantes para garantir que os acordos estão sendo cumpridos. Isso não significa que o monitoramento deva ser feito a partir do paradigma de comando e controle. Muito pelo contrário, como o grupo funciona a partir de um processo decisório coletivo, ele mesmo pode definir que esse monitoramento pode ser feito de maneira horizontal, partindo de um auto-monitoramento, por exemplo.

Princípio 5 - Sanções graduais:

Criação de consequências para pessoas que não fizerem o que prometeram fazer. Elas devem ser bem leves no começo, sendo geralmente um bate papo mostrando para a pessoa que ela não fez o prometido. As consequências também são decididas pelo grupo e geralmente culminam com a expulsão de um membro se tudo mais falhar.

Princípio 6 - Resolução de Conflitos Rápida e Justa:

Partindo do princípio que sempre haverá conflitos, o grupo define rituais periódicos para lidar com os mesmos.

Princípio 7 - Autonomia Local:

Grupos geralmente ficam dentro de outros grupos, porém funcionam melhor quando tem autonomia para tomar suas próprias decisões

Princípio 8 - Governança Policêntrica:

Como o grupo vive em um ambiente com vários outros grupos (por exemplo o 6o, 7o e 9o anos), os grupos devem se relacionar entre si como os individuos se relacionam dentro dos grupos, ou seja, seguindo os princípios acima.


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