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Minimalismo Digital: para uma vida profunda em um mundo superficial



O texto abaixo são minhas anotações sobre a primeira parte do livro "Minimalismo Digital" do Cal Newport. As partes em itálico e negrito são citações do livro enquanto as partes normais são meus comentários. Geralmente meus comentários aparecem após a citação. O livro pode ser adquirido aqui na Amazon. Percebam que não se trata de um resumo ou resenha. É apenas o processo como eu leio meus livros. Vou lendo, dialogando com o autor e observando como sou impactado pelo texto. VocÊs verão que ele sugere um processo chamado Digital Decluttering, em inglês (eu li a versão em inglês e quem fez as traduções das citações abaixo foi o GPT-4), que é basicamente dar um tempo na vida digital opcional (não relacionada a trabalho). Eu estou fazendo isso desde o dia 8 de abril e vou até o dia 7 de maio. Estou achando fantástico. Lembrem-se de enviar este texto e/ou o link para a Comunidade Conexão Marcelo Michelsohn (https://chat.whatsapp.com/HFjq6ymneLLApIpfjWhf4y).

E agora, como vocês: "Minimalismo Digital"


O primeiro capítulo é bem básico e cita Tristan Harris e Adam Alter para mostrar como as empresas de tecnologia não criaram seus produtos para causarem estes problemas, mas uma vez que perceberam o poder de capturar a atenção das pessoas, investiram pesado nisso.


O autor vai propor que devemos usar os nossos valores para re-significarmos nossa relação com a tecnologia. Ele também cita Platão e a ideia de que nossa alma é uma carruagem sendo puxada por dois cavalos, um representando nosso ideal e outro nossos piores instintos. Eu quero pensar essa questão da tecnologia saindo dessas ideias da filosofia e psicologia tradicionais ocidentais e conseguir ver com a lente da filosofia da diferença e da esquizoanálise.


"Minimalismo Digital

Uma filosofia de uso da tecnologia na qual você foca seu tempo online em um pequeno número de atividades cuidadosamente selecionadas e otimizadas que apoiam fortemente as coisas que você valoriza, e então, felizmente, deixa de lado tudo o mais."


O problema dessa definição acima é que ela é baseada na questão do valor como certo ou errado, bem ou mal. Talvez minha definição fosse algo como:


Potencialização Digital

Qualquer encontro com tecnologias digitais que aumentam sua potência, ou seja, ampliam sua capacidade de afetar e ser afetado (sentir, pensar e agir).


É possível que isso aconteça independente do dispositivo (celular, tablet, videogame, TV ou computador) e do conteúdo. Ao mesmo tempo é completamente dependente da sua maneira de viver e de se colocar em relação, incluindo sua capacidade de dosar, ou seja, sua prudência.


O problema da definição e de toda estratégia dele será o fato de se apoiar em valores ideais, para sair do buraco. Ou seja, de certa forma ele está sugerindo uma forma mais legal de cair na 2ª captura.


Não acho que ele esteja errado e talvez seja um passo necessário para diminuir as paixões tristes e dar lugar às paixões alegres, com a possibilidade subsequente de virar uma pessoa ativa.


"eles (os minimalistas) acreditam que a melhor vida digital é formada por selecionar cuidadosamente suas ferramentas para entregar benefícios maciços e inequívocos."

É uma análise de custo/benefício com relação a um valor pré-determinado. Mas vou esperar para ele falar mais sobre este valor.


"os minimalistas não se importam em perder coisas pequenas; o que os preocupa muito mais é diminuir as grandes coisas que já sabem com certeza que tornam uma boa vida boa."

A questão é que não são uma ou algumas coisas que fazem a vida ser boa, é sempre nossa relação com ela. Se é uma relação de finalidade, invariavelmente estamos na imaginação e na paixão.


Podemos até estar em paixões alegres, mas estamos capturados e isso vai cobrar um preço, pois a potência que não retorna sobre si e é desperdiçada em objetos em algum momento nos levará para as paixões tristes.



"Princípio 1: Desordem é custosa.

Os minimalistas digitais reconhecem que encher seu tempo e atenção com muitos dispositivos, aplicativos e serviços cria um custo negativo geral que pode submergir os pequenos benefícios que cada item individual proporciona isoladamente.


Princípio 2: Otimização é importante.

Os minimalistas digitais acreditam que decidir que uma tecnologia específica apoia algo que eles valorizam é apenas o primeiro passo. Para realmente extrair seu potencial benefício total, é necessário pensar cuidadosamente sobre como eles usarão a tecnologia.


Princípio 3: Intencionalidade é satisfatória.

Os minimalistas digitais obtêm uma satisfação significativa de seu compromisso geral de serem mais intencionais sobre como se envolvem com novas tecnologias. Esta fonte de satisfação é independente das decisões específicas que tomam e é uma das maiores razões pelas quais o minimalismo tende a ser imensamente significativo para seus praticantes."


"Quanto do seu tempo e atenção, ele perguntaria, deve ser sacrificado para ganhar o pequeno lucro de conexões ocasionais e novas ideias que são conquistadas cultivando uma presença significativa no Twitter?"

É toda uma análise de custo-benefício mensurada em horas. Eu não estou advogando por passar horas no Twitter e nem por sair do Twitter, mas sim por modificar a forma de dar valor para essas atividades e a forma de se relacionar com as coisas.


Ele valoriza com base em objetivos "novas conexões no Twitter" ou "ler uma nova ideia".


Pra mim. o valor não está nos resultados mas na potencialização que o acontecimento produz, e isso é impossível de medir em quantidades ou mesmo qualidades "adquiri uma ÓTIMA ideia". Só é possível avaliar em termos de intensidade, graus, diferenciação.


Atualmente (antes de eu começar o Digital Decluttering) meu uso do Twitter é um vício. Eu não uso para me conectar com pessoas ou para descobrir uma nova ideia. Eu uso porque quero saber momento a momento o que está acontecendo especialmente na política americana. É simples. Eu preciso girar a roleta e ver se tem uma novidade sobre os julgamentos do Trump ou sobre o congresso americano, ou sobre a suprema corte. Às vezes tem e às vezes não tem. Às vezes as notícias são agradáveis para mim e outras vezes não. Isso é o reforço intermitente ao quadrado (notícias novas versus velhas, e notícias ruins versus boas)


"Ele (Henry David Thoreau no seu livro Walden) nos pede para tratar os minutos de nossa vida como uma substância concreta e valiosa — possivelmente a substância mais valiosa que possuímos — e sempre calcular quanto dessa vida trocamos pelas várias atividades que permitimos que reivindiquem nosso tempo."

Isso faz sentido, mas não se for pensado com um objetivo ou finalidade na cabeça. Sim, nossos minutos são preciosos, mas não porque o uso deles vai nos permitir alcançar algo e o desperdício vai impedir que alcancemos esta coisa. Eles são preciosos, pois a cada momento podemos potencializar nossa potência ou não. E isso depende do que e de como nos relacionamos com o mundo.


"Suponha que você ache importante se manter informado sobre os eventos atuais. Novas tecnologias certamente podem ajudá-lo a apoiar esse objetivo."

Novamente fica claro que ele já parte do princípio de que precisamos definir o que é importante para nós. Neste caso, ficarmos informados sobre os eventos do mundo. Ele não questiona o porquê isso seria importante ou o fato disso ser importante com algum tipo de finalidade em mente e não pelo ato de ficar informado, em si.


"Gabriella, por exemplo, assinou a Netflix como uma fonte de entretenimento melhor (e mais barata) do que a TV a cabo. No entanto, ela se tornou propensa a maratonar séries, o que prejudicou sua produtividade profissional e a deixou insatisfeita. Após mais algumas experimentações, Gabriella adotou uma otimização para esse processo: ela não está mais autorizada a assistir Netflix sozinha. Essa restrição ainda permite que ela aproveite o valor que a Netflix oferece, mas de uma maneira mais controlada que limita seu potencial de abuso e fortalece algo mais que ela valoriza: sua vida social. 'Agora [assistir séries] é uma atividade social em vez de uma atividade isolante', ela me disse."

Isso me parece como um alcoólatra falando que só vai beber um pouquinho. Se esse é realmente um vício dela, assim que acontecer algo que a jogue num buraco ela pode voltar a maratonar séries na Netflix.


"Os Amish, ao que parece, fazem algo que é ao mesmo tempo chocantemente radical e simples em nossa era de consumismo impulsivo e complicado: eles começam com as coisas que mais valorizam, depois retrocedem para perguntar se uma determinada nova tecnologia faz mais mal do que bem em relação a esses valores."

Pronto! Agora ele abriu o jogo. Usando os Amish como exemplo ele deu luz ao que chama de "valores". Sim, são valores morais de certo ou errado, bem ou mal, baseados em algum ideal, neste caso a religião Amish. Mas pode ser algo não religioso, como "ser bem-sucedido" ou "fazer o bem". Não tenho nada contra os Amish, inclusive fui visitar uma comunidade quando morei nos EUA e adorei.


"Em nossa conversa, ela enfatizou a importância de estar presente com sua filha, mesmo quando entediada, e o valor que obtém ao passar tempo com amigos livre de distrações.

No exemplo acima, ele fala de uma Menonita que nunca teve celular. Neste caso, pela primeira vez, os exemplos que ele dá têm mais a ver com a maneira de viver do que com uma finalidade. Estar presente com a filha e não ter distrações enquanto está com os amigos são maneiras de estar no mundo mais do que objetivos. Se eles se tornarem objetivos, já voltamos para a 2ª captura, que é a busca por algo para sair do buraco. No final das contas, é importante perceber que esse buraco é produzido de fora tanto quanto as salvações ideais.


"Minha heurística geral é a seguinte: considere a tecnologia opcional, a menos que sua remoção temporária prejudique ou interrompa significativamente a operação diária de sua vida profissional ou pessoal."

"Minha sugestão final é usar procedimentos operacionais ao confrontar uma tecnologia que é amplamente opcional, com exceção de alguns casos de uso críticos. Estes procedimentos especificam exatamente como e quando você usa uma tecnologia específica, permitindo que você mantenha alguns usos críticos sem ter que recorrer ao acesso irrestrito."

Vou precisar disso para coisas como WhatsApp


Listar todas as tecnologias e classificar como opcional ou essencial. Essa é a minha lista. Tente fazer a sua.

  1. email pessoal - opcional

  2. email profissional - essencial

  3. twitter - opcional

  4. Netflix/Amazon/HBO/Star+ - opcional

  5. Celular - essencial (algumas coisas)

  6. Cartão de Pagamento no celular - opcional (posso voltar a usar o de plástico)

  7. whatsapp - essencial para trabalho e familia próxima

  8. waze - opcional (mas muito útil)

  9. telegram - opcional

  10. calendar - essencial

  11. banco - essencial

  12. discord - essencial (para o meu trabalho)

  13. podcast - opcional

  14. canva - opcional

  15. ynab - opcional (mas não quero voltar a fazer meu orçamento no excel)

  16. ChatGPT - opcional

  17. Nutror - essencial (curso de formação)

  18. LinkedIn - opcional

  19. Instagram - opcional

  20. Google Drive - essencial

  21. NextFit - Funcional - essencial

  22. Uber - essencial

  23. Everand/Scribd - essencial (é por onde leio meus livros)

"Um motivo principal pelo qual recomendo fazer uma pausa prolongada antes de tentar transformar sua vida digital é que, sem a clareza proporcionada pelo detox, a atração viciante das tecnologias influenciará suas decisões. Se você decidir reformar seu relacionamento com o Instagram agora mesmo, suas decisões sobre qual papel ele deve desempenhar em sua vida provavelmente serão muito mais fracas do que se, em vez disso, você passasse trinta dias sem o serviço antes de tomar essas escolhas."

Essa é uma questão importante. Por um lado, sim, neste momento o que eu imagino ser minha relação com o Twitter pode estar baseada no meu vício. Mas por outro lado, existem teorias que dizem que eu deveria aumentar minha relação com o meu vício, levar até o limite, ESGOTAR, e que só assim eu consigo me livrar dele. Essa ideia de detox, de colocar termos de uso, podem virar apenas tentativas de controlar o vício, que podem falhar caso a causa do vício não seja trabalhada. Não estou dizendo que é errado fazer o detox e não estou sugerindo que alcoólatras devam beber até esgotar o vício. Estou dizendo que existem esses dois posicionamentos em mim e que preciso olhar para isso.


"Para que esse processo tenha sucesso, você também deve passar esse período tentando redescobrir o que é importante para você e o que você gosta fora do mundo do digital sempre ativo e brilhante."

"Para muitas pessoas, seu uso compulsivo do telefone encobre um vazio criado pela falta de uma vida de lazer bem desenvolvida. Reduzir a distração fácil sem também preencher o vazio pode tornar a vida desagradavelmente sem graça — um resultado provável de minar qualquer transição para o minimalismo."

Então aqui está a questão. Se sentimos que há um vazio que precisa ser preenchido, vamos usar o que estiver à disposição, o que for mais cômodo. Será que o aumento mundial (principalmente entre jovens) do vício em redes sociais e pornografia vai diminuir o vício em álcool e outras substâncias? Afinal, é mais barato e "seguro"

O trabalho então é nessa sensação de vazio, de que falta algo, que tem que ser preenchido.


"Alguns dos participantes em minha experiência de desordem em massa trataram o processo apenas como um detox digital clássico — reintroduzindo todas as suas tecnologias opcionais quando o detox terminou. Este é um erro. O objetivo desta etapa final é começar com uma lousa em branco e só deixar voltar à sua vida a tecnologia que passa pelos seus rigorosos padrões minimalistas. É o cuidado que você toma aqui que determinará se esse processo desencadeará uma mudança duradoura em sua vida."

Acredito que se, durante os 30 dias, não for feito um trabalho de olhar para as crenças de falta e não for experimentado um aumento de potência (alegria), ou seja um aumento da capacidade de sentir, agir e pensar, invariavelmente, as tecnologias de distração e anestesia vão voltar com força.


"Essa tecnologia apoia diretamente algo que eu valorizo profundamente? Esta é a única condição pela qual você deve permitir que uma dessas ferramentas entre em sua vida."

A minha diferença com o autor me faz mudar essa frase acima para: O encontro com essa tecnologia aumenta ou diminui sua potência de sentir, pensar e agir? Sua potência de afetar e ser afetado?


"Se essa tecnologia passa essa primeira questão de triagem, ela deve então enfrentar um padrão mais difícil: Essa tecnologia é a melhor maneira de apoiar esse valor?"

Novamente, a única diferença seria tirar a questão dos valores (pois tendem a ser algo estático, idealizado e universal) e substituir pelo crivo da potência.


"muitas empresas da economia da atenção (Redes Sociais principalmente) querem que você pense sobre seus serviços de forma binária: ou você usa, ou você não usa. Isso lhes permite atrair você para seu ecossistema com algum recurso que você acha importante, e então, uma vez que você é um 'usuário', empregar engenharia de atenção para oprimir você com opções integradas, tentando mantê-lo engajado com seu serviço muito além do seu propósito original."

Essa é uma questão muito importante. Não podemos ser ingênuos. Os aplicativos são criados e geridos por um poder computacional quase indescritível. Hoje, após uma semana sem YouTube, eu me dei conta de que o algoritmo era muito preciso e me recomendava vídeos super interessantes. Pelo menos um dos três primeiros vídeos era clicável. E não eram bobagens. Um poderia ser sobre Inteligência Artificial, outro sobre conflitos no mundo e um terceiro sobre filosofia ou neurociências. Tudo importante. Nada de gatinhos fazendo coisas engraçadas. Então, achar que eu posso voltar ao YouTube da mesma forma que fazia antes é um absurdo. Tenho que usar prudência. Tenho que usar a arte das doses. Por exemplo, nunca mais clicar nas sugestões do YouTube. Ver apenas o vídeo necessário e não ver o próximo. Mesmo assim, não há garantias.


Muitos participantes da pesquisa do autor relataram que o maior vício era ficar checando as notícias. Esse é um dos meus maiores vícios também. A minha pergunta é: quais as forças sociais e emocionais que me levam a fazer isso? Qual é o osso que não quero largar? Que tipo de prazer ou poder isso me confere? E a resposta que vem, num primeiro momento, é que saber sobre as notícias internacionais minuto a minuto, me fazem sentir que estou à frente de todo mundo, que sei mais do que a maioria, que sou melhor. Claramente isso é uma captura que vem de uma sensação de ser menos, de não ser suficiente, de não ser útil. Se eu sei as notícias antes de todo mundo, eu posso compartilhar, explicar, problematizar e receber em troca algum tipo de recompensa social.


Aqui terminou a Parte 1 do Livro. Se eu seguir a diante na leitura e no detox eu escrevo um novo texto para contar. Enquanto isso, lembre-se de enviar esse texto e o link para entrar na comunidade Conexão Marcelo Michelsohn (https://chat.whatsapp.com/HFjq6ymneLLApIpfjWhf4y) para uma pessoa que você acha que vai se beneficiar deste conteúdo. Se você ou alguém que você conhece precisar de ajuda psicoterapêutica, mande uma mensagem no meu whatsapp (o número está lá na comunidade)

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