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Redes Sociais e Saúde Mental das Crianças e Adolescentes



O Contexto Atual das Redes Sociais e a Saúde Mental:

Todo mundo sabe que estamos vivendo uma epidemia de transtornos mentais entre adolescentes. Sabemos também que existe uma correlação entre o aumento desses transtornos e o crescente uso das redes sociais. O problema é tão grave que o Cirurgião Geral dos Estados Unidos, Vivek H. Murthy, responsável pelas questões de saúde pública daquele país, lançou uma declaração de 25 páginas alertando para os perigos do uso indiscriminado das redes sociais e seus impactos na saúde mental dos adolescentes e crianças.


O Impacto Negativo das Redes Sociais:



Segundo a publicação, adolescentes que passam mais de três horas por dia nas redes sociais dobram o risco de sintomas de depressão e ansiedade. Infelizmente a média de uso em 2021 foi de 3,5 horas por dia. A publicação ainda afirma que as redes sociais podem manter e aumentar a insatisfação corporal, os transtornos alimentares, a comparação social e a baixa autoestima: “Um terço ou mais das meninas entre os 11 e os 15 anos dizem que se sentem “viciadas” em determinadas plataformas de redes sociais e mais de metade dos adolescentes relatam que seria difícil abandonar as redes sociais. Quando questionados sobre o impacto das redes sociais na sua imagem corporal, 46% dos adolescentes com idades entre os 13 e os 17 anos disseram que as redes sociais os fazem sentir-se pior.”.


Consequências Adicionais e Exposição a Conteúdos Tóxicos:

Além do problema com a quantidade de horas, 64% dos adolescentes são “frequentemente” ou “às vezes” expostos a conteúdos de ódio através das redes sociais. Estudos também mostraram uma relação entre o uso das redes sociais e a má qualidade do sono, redução da duração do sono e dificuldades para dormir.


O Dilema das Redes e Estratégias de Combate:



As redes sociais nasceram com a promessa de aumentar a conexão entre as pessoas, porém devido ao seu modelo de negócios baseado em engajamento, ou seja, manter as pessoas o máximo de tempo possível na tela, seus efeitos colaterais sistêmicos são cada vez mais claros. No âmbito individual, temos os transtornos mentais como vimos acima, enquanto no âmbito social vemos o aumento da radicalização, da polarização e simplesmente uma quebra da possibilidade de diálogo.


O Center for Humane Technology fundado por Tristan Harris e Aza Raskin, os responsáveis pelo importantíssimo filme O Dilema das Redes oferecem informações importantes para adolescentes, pais, educadores e legisladores que querem transformar esse cenário nas suas vidas pessoais e na sociedade como um todo. Entre outras coisas ele sugerem que os adolescentes:


  • Escrevam e compartilhem suas histórias de como o uso das redes sociais está impactando suas vidas

  • Reflitam sobre o “porque” gostariam de mudar seus hábitos com relação ao uso das redes sociais

  • Definam metas para essas mudanças de hábitos

  • Modifiquem suas configurações como por exemplo, desligar notificações, tirar o autoplay do YouTube, criar limites de tempos, até deletar os aplicativos

  • Manter um diário e continuar compartilhando com outras pessoas o que está acontecendo na sua vida


Inteligência Artificial: Uma Nova Mudança Sistêmica:

Nós nem conseguimos lidar com os problemas gerados pelas Redes Sociais e já estamos imersos em outra mudança sistêmica ainda maior, os sistemas de inteligência artificial. Enquanto as redes sociais buscam o engajamento indo cada vez mais fundo no nosso tronco cerebral em busca de reações mais primitivas, a inteligência artificial busca intimidade, possivelmente através de sedução. Não temos ideia do que isso significa individualmente para cada um de nós e nossos filhos e filhas, muito menos o impacto social disso.


Espinosa e a Receptividade Humana ao Estímulo Digital:



Senti vontade de pensar sobre a questão do impacto das redes sociais, usando alguns conceitos que Espinosa trabalhou no seu mais importante livro, Ética, pois acredito que a força do seu pensamento pode nos ajudar aqui.


Espinosa nos ensina que quando estímulos luminosos e sonoros entram em contato com nosso corpo, modificam nossas sensações e criam marcas. Essas marcas, então, viram ideias em nossas mentes. Por exemplo, ao encontrarmos uma pessoa, recebemos uma série de estímulos que dependem não só da pessoa em si, mas do estado do nosso corpo. Por exemplo, se estamos resfriados, podemos não conseguir receber tão bem os estímulos olfativos. Nossa mente percebe as modificações que esses estímulos fizeram em nossos corpos e assim surge a ideia em nosso pensamento. Essa ideia composta, Espinosa chama de imagem e essa imagem pode perdurar em nossa mente mesmo quando a outra pessoa não está na nossa frente ou mesmo quando não existe mais na face da terra.


Agora, imaginem um adolescente que passa 3, 5,7 ou 9 horas por dia em seu celular. Em primeiro lugar, os estímulos de uma certa forma são muito mais simplificados, pois eles não estão vendo objetos concretos, mas simplesmente representações visuais dos mesmos. Eles podem ver o vídeo de um gato, mas não sentem o cheiro ou a maciez dos pelos, por exemplo. Além disso, esse constante bombardeio de imagens vai criando marcas, caminhos neurais cada vez mais enrijecidos. Espinosa explica que quando essas marcas ficam profundas, elas viram filtros através dos quais começamos a perceber a realidade, cada vez de modo mais equivocado. E até aqui, nem estou falando de conteúdos apropriados ou não, pois acho que nem precisamos entrar em questões morais, neste momento. Quero chamar atenção para uma modificação fisiológica que está acontecendo e está influenciando a relação das pessoas com a realidade. Essas marcas acabam diminuindo a capacidade da pessoa de ser afetada pelo mundo externo, pois sua sensibilidade está capturada, ou melhor, sobrecarregada por esse sobre-estímulo.


Os Efeitos Bioquímicos e a Necessidade de Autoconfronto:

Além disso, há também os processos de liberação de dopamina que acontecem com o uso das redes sociais. Porém quanto mais dopamina é liberada, mais quantidade é preciso para elevar a sensação de bem estar para o mesmo nível. Porém, quando o organismo tenta equilibrar a quantidade de dopamina, ele acaba corrigindo muito pra baixo e aos poucos a sensação de tristeza, indisposição, vão ficando cada vez maiores. Porém essa indisposição não conduz ao sono. Muito pelo contrário, o sono é gravemente afetado, pois é durante o sono que a dopamina é corrigida, ou seja, o corpo não quer dormir, pois quer continuar produzindo dopamina e isso vira um ciclo vicioso.


Eu não apostaria minhas cartas no governo e muito menos nas próprias empresas para lidar com esta situação. Acho que a questão é fazermos este combate nós mesmos. Não adianta culpar o adolescente pelo uso das redes sociais, mas é importante mostrar como ele está sendo cúmplice ao usar esse dispositivo como uma máquina de produzir pequenos prazeres e assim se livrar dos desconfortos da vida. Os pais também não querem viver situações desconfortáveis e evitam o confronto afirmando que não querem invadir a privacidade dos filhos.


O Desafio de Se Reconectar:

Não vejo outro caminho a não ser nos abrirmos para essas sensações de incômodo e atravessarmos elas, com toda a dor que possam produzir. É preciso usar esse desconforto se quisermos nos reconectar com nossas sensibilidades e assim aumentar nossa potência de afetar e de sermos afetados. No fundo, é isso que a vida quer, ou melhor, é isso que a vida é, uma máquina de produção de diferenças.


(Se precisar de apoio para lidar com essas ou outras questões, estou com alguns horários disponíveis. Escreva para marcelo@marcelomichelsohn.com)




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