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  • mmichelsohn

Também Morre Quem Atira




Neste texto, te convido a uma sessão clínica na qual apresento dispositivos que uso para tirar os analisandos de seus padrões e permitir decisões mais potentes, livres e precisas. Neste caso vamos falar sobre um homem de 53 anos que se separou há pouco e está tentando reconstruir sua vida amorosa. Vou chamá-lo de Pedro.


Pedro odeia sair sozinho e detesta paquerar na balada. No começo da sessão me disse que criou coragem e foi num forró sozinho. Tomou três cervejas. Distribuiu sorrisos e voltou pra casa. Olhei nos olhos dele e vi uma lágrima. Perguntei o que ele estava pensando ou sentindo.


  • Vem um pensamento de “quanto tempo eu perdi na vida” e outro que diz “mas agora você está mais perto de conseguir”.


Esses dois pensamentos são produções do nosso eu rebaixado ou da nossa Parte X. A Parte X é um conceito criado por Phil Stutz e se refere a uma parte nossa que tenta nos manter estagnados ressentindo o passado ou criando expectativas para o futuro.


Neste caso, o primeiro pensamento é de lamento pelo tempo perdido e o segundo cria expectativas, como se a vida fosse uma corrida com “faixa de chegada e beijo de namorada”. Depois de falar algo assim pra ele, vi que ele foi para outro lugar.


Pedro continuou:


  • Eu entendi porque eu quero fazer isso. Eu quero a revanche do meu ex, que está indo para as baladas. (Eles se separaram após 20 anos casados)



Outro tipo de ataque da Parte X é criar pensamentos comparativos. E se achamos que estamos perdendo, temos que compensar, mesmo que seja fazendo coisas que não aumentam nossa potência, que não criam vida em nós.


Ele me disse:


  • Eu gosto de ter uma relação de carinho com as pessoas com quem estou junto e não estou falando apenas de namorados.


Sim, mas não se distraia desse revanchista que existe em você. Afirma ele. Fale “Eu sou revanchista”, “revanche”. Repita essa palavra até ela perder o sentido e sinta seu corpo. Esse é um dispositivo que costumo usar muito para interromper a razão e deslocar as emoções e crenças estagnadas em nosso corpo.


Como dizia o Rappa na sua versão de “Hey Joe” do Jimi Hendrix, “Também morre quem atira”. O revanchista se rebaixa ao ser capturado pelas forças reativas do outro e acaba morrendo pequenas mortes em vida através desta competição insana.





De repente seu semblante mudou e ele disse:


  • Nossa, acabou de vir um insight sobre outra coisa. Eu não estou conseguindo fechar o contrato com o decorador que vai renovar meu apartamento pois não é pra eu continuar morando aqui. Eu vou me mudar! Eu sei que vai custar mais caro e dar mais trabalho, mas eu preciso me mudar porque….


Nessa hora eu o interrompi. “Não continue essa frase. Você acabou de ganhar um presente. Você, ao afirmar a revanche, desinvestiu dela, desinvestiu do seu hábito e criou uma brecha, criou velocidade de escape e aí veio o insight.”


Não perca essa potência voltando ao hábito de explicar. Quem quer explicar é sua mente racional, capturada. Ela quer os louros. Ela não aceita que sua intuição, por alguns segundos, tomou o leme da sua vida. Só olha para esse hábito da consciência e diga “Não”.


Quando escapamos da gravidade e conseguimos alçar vôos potentes, nos abrimos para o inédito, para a intuição. A má consciência percebe que escapamos e tenta nos arrastar novamente para sua lama conhecida. “Você decidiu isso por causa de a, b e c”. E aí quando a, b e c dão errado, ela está na esquina pra falar “Você é um idiota mesmo. Não devia ter se mudado. Olha o dinheiro e a energia que gastou”.


Quando estamos fracos, preferimos nadar na nossa lama conhecida do que nos aventurarmos por outras paisagens. E não estou falando aqui de fugir, de se separar, de pedir demissão. Podemos e devemos alcançar outros estados de vida, sem apelarmos para movimentos que também são padronizados e reativos.


Ele ficou um tempo em silêncio e disse: “Eu preciso descansar. Acordei às 3 da manhã e não dormi mais.”


“Você consegue criar esse tempo de descanso pra você agora no meio do dia?”, perguntei pois sei que ele é um médico bem ocupado. Ele disse “sim”, e então eu falei “vai. Ouça seu corpo”.



Se quiser experimentar, entre em contato por aqui ou no marcelo@marcelomichelsohn.com


Se conhece alguém que poderia aproveitar esse texto, por favor encaminhe o link.



(Aviso importante: Os textos publicados neste blog não são recomendações médicas ou psicológicas. Procure alguém da sua confiança caso sinta necessidade. Se quiser marcar sessões comigo, escreva para marcelo@marcelomichelsohn.com)





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